Revista Eletrônica Don Domênico

Cláudia Santos do Nascimento Gomes
Editora

Chegar à 15ª Edição da Revista Eletrônica de Divulgação Científica do Centro Universitário Don Domênico é motivo de satisfação, mas também de responsabilidade. Uma revista acadêmica não deve existir apenas para registrar que pesquisas foram concluídas; ela precisa fazê-las circular, colocá-las em debate e, quando necessário, permitir que incomodem certezas já acomodadas. É com esse entendimento que apresentamos esta edição, composta por artigos de diferentes áreas do conhecimento e, sobretudo, por trabalhos nascidos do Projeto Institucional de Iniciação Científica do UNIDON, implementado em 2024. O que começou como uma decisão institucional de fortalecer a pesquisa na graduação ganha agora uma forma concreta: estudantes e docentes dividindo autoria, perguntas, dúvidas, escolhas metodológicas e o trabalho — nem sempre simples — de transformar inquietações em conhecimento público.

Há algo especialmente importante nesse percurso. Iniciação científica não pode ser confundida com treinamento para preencher formulários, reproduzir citações ou cumprir horas acadêmicas. Pesquisa começa quando alguém aprende a formular uma pergunta que realmente vale a pena perseguir e aceita que a primeira resposta talvez esteja errada. Os artigos aqui reunidos mostram justamente esse movimento. Alguns são mais teóricos; outros observam experiências, analisam obras, sistematizam estudos ou ensaiam soluções aplicáveis. Nem todos chegam ao mesmo tipo de conclusão — e ainda bem. Uma revista multidisciplinar perderia sua razão de ser se fingisse uma unidade que não existe. O que une esta edição não é uma opinião única, mas a disposição de examinar problemas relevantes com método, orientação e coragem intelectual.

Uma parte expressiva dos textos volta-se à educação e à infância, sem romantizar a escola. Os estudos discutem a violência naturalizada nas relações educativas, a colonialidade e a formação docente; aproximam Paulo Freire do pensamento decolonial; interrogam a influência da branquitude sobre a estética escolar e analisam o racismo em espaços escolares e universitários. Ao lado deles, pesquisas sobre autismo, afetividade, apego seguro, motivação, brincar livre, psicomotricidade e danças circulares lembram que aprendizagem não acontece apenas no plano abstrato: ela envolve corpo, vínculo, emoção, autonomia e pertencimento. Esse conjunto assume uma posição que considero indispensável: incluir não é apenas matricular, acolher no discurso ou adaptar uma atividade de vez em quando. Inclusão exige rever práticas, relações de poder e critérios aparentemente neutros que, muitas vezes, continuam excluindo.

A mesma disposição crítica atravessa os trabalhos sobre preconceito, discriminação, racismo no esporte profissional, identidade social nas mídias digitais e representação da deficiência na literatura infantil. São temas diferentes, mas todos perguntam quem pode ser visto, ouvido e reconhecido — e sob quais condições. A análise de obras protagonizadas por pessoas com deficiência mostra o peso ético da representação na formação das crianças; a investigação sobre atletas negros expõe desigualdades que o discurso da meritocracia esportiva costuma esconder; e o estudo das conexões digitais recusa uma leitura fácil das redes sociais, compreendendo-as ao mesmo tempo como espaços de pertencimento e de vulnerabilidade. Essa ambivalência merece ser preservada. A boa pesquisa raramente entrega respostas confortavelmente puras; ela nos obriga a sustentar tensões que a opinião apressada prefere eliminar.

Outros artigos ampliam ainda mais o campo desta edição. A literatura africana anglófona, por meio de Chinua Achebe e Wole Soyinka, provoca uma pergunta incômoda sobre as ausências nos currículos de Literatura Inglesa. A educação ambiental aproxima escola, comunidade e preservação marinha, tema incontornável para uma instituição situada na região costeira. Já o estudo sobre inteligência artificial aplicada à assessoria administrativa, contábil e financeira de micro e pequenas empresas discute ganhos reais de produtividade, mas não ignora governança de dados, ética e conformidade com a LGPD. É tentador tratar a tecnologia como solução automática; não é. Ferramentas só produzem avanços consistentes quando acompanhadas de critérios, responsabilidade e compreensão do contexto em que serão usadas. A multidisciplinaridade desta edição se revela precisamente aí: não na simples reunião de áreas, mas no confronto entre conhecimento técnico, experiência humana e consequências sociais.

Publicar estes trabalhos é, portanto, mais do que encerrar um ciclo iniciado em 2024. É afirmar que o Projeto Institucional de Iniciação Científica do UNIDON começa a criar uma cultura de pesquisa que precisa ser contínua, exigente e visível. Ainda há muito a amadurecer — como sempre haverá em qualquer instituição que leve a produção científica a sério —, porém os resultados desta 15ª Edição mostram que o caminho foi aberto e já produz encontros férteis entre graduação, docência e sociedade. Convido todos os nossos leitores a percorrerem os artigos não apenas em busca de concordância, mas também de novos questionamentos e perspectivas. Leiam para conhecer, questionar, discordar com fundamento e encontrar novas perguntas. Se esta edição provocar esse movimento, terá cumprido sua tarefa.

Boa leitura!

Guarujá - ISSN 2177-4641 - Periodicidade Semestral

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